segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Duas cantoras

Em um país de cantoras, como o Brasil, quando surge alguma nova, algumas pessoas já dizem: "lá vem mais uma sapa". Bem, tirando o preconceito, é fato que temos uma grande quantidade de cantoras lésbicas (pouquíssimas assumidas, mas isto é outro papo).
Aqui, gostaria de falar de duas cantoras - me esquivarei de dizer se são lésbicas ou não - o que interessa é que elas são boas cantoras, estão gramando por aí, procurando o seu lugar ao sol. São elas Aline Costa e Sandra Grego.
A Aline eu conheci em Maceió, em 2004, quando fui lá para fazer uma cobertura para o GLSPLANET. Ela estava prestes a se mudar com filho e malas para Porto Alegre, para viver um grande amor.
Ela andou fazendo algumas aberturas de shows, num estilo muito próximo ao da Cássia Eller, mas seu lirismo tem pitadas de Raul Seixas - aposto que se ela ler isto, vai se perguntar: "de onde esta louca tirou isso?" - Bem, a música desperta sentimentos tão diferentes e inusitados na gente, que a nossa imaginação fica solta e, ademais, delirar é comigo - rsrsrsrs.
Aline tem presença forte no palco. Toca bem e canta de uma forma bem engajada e, como boa nordestina, muito cheia de emoção e vigor.
O cd da Aline que eu tenho é o "Sentido Único" e eu vou destacar apenas uma música do cd, justamente a que dá título a ele:

Sentido Único
(Aline Costa)

A porta estava aberta
Eu entrei
Olhei pra trás
Não te vi
Mas, caminhei

Ainda escuto os passos
Das pernas que não me pertencem
Apresso essa distância
Pra não te ver mais

Nunca mais

E vou parar numa rua de um único sentido
Que vai dar no cais
Ponto preferido dos amantes
Que não existem mais

Parei de escutar teus passos
Caminho na solidão
Sigo as placas
Que sinalizam o rumo do meu coração

Coração
Que quer manter distância de você
Coração
Que quer andar sozinho pra crescer.
Coração
Que quer
E ao mesmo tempo não quer mais te ter.

PS.: Ah! Antes que eu esqueça, quem tiver alguma notícia da Aline, por onde ela anda se apresentando, me avisa que eu coloco aqui pra divulgar.

Já a Sandra eu conheci em uma palestra no Rio, em 2005. Ela fez um show com voz e violão ao final de uma palestra que eu estava. Fiquei impressionada, uma música eu me lembrava de já ter ouvido na MPB FM, mas achei que ela tinha uma interpretação tão forte e marcante, que fiquei meio sem fala.
Bem, ao final do seu show fui conversar com ela. Quis saber um pouco sobre a sua carreira, ela mostrou o cd, disse que estava batalhando, correndo mesmo atrás, mas era dura a estrada. Pra mim, ela já estava quase pronta, só faltava um "Nando Reis" pra produzir aquele disco que iria catapultá-la pro sucesso.
O cd - "Será que eu falo grego?" -, simples, mas bem produzido, com músicas interessantes, mas ainda não revelava aquela voz que nós ouvimos no show voz e violão que ela levou naquele dia - e que voz!!! Diferente, instingante, forte.
Neste cd, Sandra namora com o blues, com uma levada meio Cazuza. Ela brinca com uma sensualidade e com a crítica social, mas o disco não é deprê.
Há pouco tempo recebi no meu e-mail a propaganda de mais um show da Sandra, no Severyna, lá em Laranjeiras (Rio). Repassei rapidamente pra tod@s, porque um show da Sandra é imperdível, mas eu mesma não pude ir - uma lástima!
Bem, vamos a música da Sandra. Deste cd que eu tenho (o único), "Será que eu falo grego?":

Será que eu falo grego?
(Marco Jabú)

Perspectiva pode ser avenida
Metáfora pode ser mudança
Um caminhão mudando tudo na vida
Uma palavra seqüestrando a esperança
Eu piso numa flor, eu fico fera contigo
O mundo vai além de um palmo do seu umbigo
Será que eu falo grego?

Filosofia pode ser amizade
Platéia pdoe ser uma praça
Balão de gás, pipoca, feira e cidade
Será um golpe no estado de graça?
Eu flao uma coisa e você muda o sentido
Eu grito pra parede dentro do seu ouvido
Vou riscar o quadro negro
Será que eu falo grego?

E você nunca me entende
Na língua do desapego
O ser é não achar que ter
É calar o outro ser

Apesar de jornalista, procuro me manter meio distante do mundo artístico, não curto estas badalações, mas gostaria sinceramente que uma Zélia Duncan ou uma Marina Lima da vida, só para citar duas, ouvissem tanto a Sandra, quanto a Aline.
Até consigo imaginar que elas recebam milhares de cds todos os dias, com super-cantoras que povoam este país, mas dá vontade da gente dar uma forcinha quando ouve alguém que promete e que está ralando o peito no caco de vidro pra conseguir entrar neste cipoal de gravadoras multinacionais, que só querem a certeza de grandes sucessos. Por outro lado, sei que existem gravadoras menores, mas até pra se chegar a elas, tem que se conhecer alguém e bla bla bla bla... Ou seja, é difícil.
Sei que as duas cantoras continuam ralando nos barzinhos da vida, se apresentando por "algum trocado que lhes dê garantia" (sim, elas precisam garantir o leite e o feijão com arroz), fazendo propaganda boca a boca, lutando pra gravar seu cd que, enfim, chegue às mãos daquele produtor que vai ouvir e dizer: "Uau, que cantora maravilhosa! Como eu nunca ouvi antes?". Mas, até lá (e se chegar lá), a estrada é longa e duríssima.
Posso dizer a favor das duas é que eu ouvi e gostei, tanto é que comprei os cds (acreditem, sou meio pão dura pra comprar cds, só mesmo quando eu gosto, acho diferente e interessante).
Aqui fica a minha contribuição para o sucesso das duas! Quem puder, quando elas passarem perto de vocês, não deixem de assistir o show. Vale a pena.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Acústico de louvor

Na quinta-feira (08/11), ao chegar em casa, minhas meninas (minha mãe e minha tia) assistiam à entrega do Grammy Latino, pela tv Bandeirantes.
Fiquei contente ao ver uma tv brasileira, botar no ar uma premiação voltada para os latinos (os de lá, é claro, porque o Grammy é americano).
Logo, veio a premiação brasileira - desculpem a ignorância, porque eu não sabia que o Brasil era uma categoria à parte na premiação. Achei estranho, mas segui assistindo. Quem apresentou foi a simpática Patrícia Maldonado, apresentadora da Band (transmissão da Band = apresentadora da Band, tudo a ver).
A primeira sub-categoria que a Maldonado apresentou foi a de música religiosa. Surpres@s? Eu também.
Dos cinco concorrentes, não por acaso, quatro eram evangélicos neopentecostais, da gravadora Line Records (leia-se Igreja Universal do Reino de Deus) e um era um padre católico.
Nunca pensei em ver música religiosa ser premiada. Sou da época em que os cânticos devocionais serviam para arrematar o efeito das orações naquele que orava e cantava louvando ao seu deus. Nada a ver com hits que povoam as paradas musicais, que têm ritmos variados (pagode gospel, funk gospel e por aí vai) e oferecem louvor descartável até o próximo sucesso.
Bem, pelo menos a vencedora, Aline Barros, estava lá para receber o prêmio. No mais, tirando a Daniela Mercury, que até fez um discurso reivindicando que artistas brasileiros, argentinos, bolivianos, chilenos e etc., participassem do show principal do Grammy Latino e não dos secundários, o que se viu foi um festival de ausências das estrelas brasileiras (Lobão, Lenine, Caetano Veloso, Cauby Peixoto, Zeca Pagodinho, só para citar alguns dos premiados brazucas ausentes) e lá estava a Maldonado para agradecer os prêmios em nome deles. A meu ver, esta ausência só mostra uma descortesia e tanto. Mas,....
Na premiação da categoria brasileira, uma certeza emergiu: se você quiser ser indicado ao Grammy Latino e até ganhar um, terá que fazer um acústivo MTV. Não tem erro!
Não quis e também não podia assistir mais. Fui dormir com uma sensação de que tudo é tão "fake", tão mercantilizado e ao mesmo tempo tão velho, que mesmo encoberto por um glamour, não resiste a um segundo olhar.
Que presente tão igual ao passado é este?

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Parada, feriado e tropa de elite

Neste domingo, 14 de outubro, foi realizada a 12a Parada do Orgulho Gay do Rio de Janeiro. Transferida diversas vezes, a data foi escolhida porque, segundo os organizadores, dentre outros motivos, atrairia mais participantes.
Não foi bem assim. Era visível que o número de participantes caíra.
Vamos creditar este fato a um erro de cálculo dos organizadores, mas de qualquer forma temos mais uma vez a desagradável guerra de números. Segundo a subprefeitura de Copacabana e os organizadores foram 1,200 milhão pessoas. Já a Polícia Militar, responsável por liberar os números oficiais, estimou o público em 500 mil pessoas, nas palavras do tenente-coronel Ricardo Pacheco, comandante do 19o Batalhão da PM, segundo informação publicada no jornal O Globo, de 15/10/2007, nesta segunda-feira. Os números são tão discrepantes que chocam.
A Parada do Rio ganhou também um caráter político às avessas. Tornou-se palanque de políticos do Partido dos Trabalhadores e de partidos aliados. Estavam lá para, digamos, emprestar o seu apoio a nós homossexuais, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB-RJ); o secretário estadual Carlos Minc (PT-RJ), do Meio Ambiente; a deputada federal Cida Diogo (PT-RJ); as senadoras Ideli Salvatti (PT-SC) e Fátima Cleide (PT-RO); o secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti; e, por fim, a ministra adjunta da Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres, do governo federal, Teresa Sousa.
A única legenda não ligada ao governo federal presente no evento foi o DEM (ex-PFL). Estava lá o secretário municipal Marcelo Garcia, de Assistência Social, que representava o alcaide da cidade maravilhosa, sr. Cesar Maia (DEM-RJ).
É óbvio que estes políticos sempre apoiaram as reivindicações que fizemos. Contudo, é no mínimo curiosa a presença maciça deles neste evento.
Em que pese este atrelamento da Parada Gay do Rio à política nacional, espero que não tenhamos mensalões ou bois voando no cenário GLBTT carioca e nem pessoas negociando nossos votos para conseguir um lugarzinho ao sol na política tupiniquim.

domingo, 14 de outubro de 2007

YA BASTA!!!

Cheguei da Parada Gay aqui no Rio, e fui ligar para duas amigas, porque uma delas teve seu celular roubado enquanto caminhávamos justamente na Parada.
Ela estava mais tranqüila, porque conseguira bloquear o aparelho. Mas tirando o aborrecimento, ela disse que se já vinha pouco ao Rio (embora cariocas, moram fora da cidade), agora mesmo é que não viria mais. E me questionou como poderíamos achar natural viver em sobressalto, sempre esperando um assalto ou um roubo. Ela chamou isto de lavagem cerebral, porque achamos normal vivermos assim.
Não estiquei o assunto, porque estava no celular e tenho uma certa preguiça em falar nele, mas o que ela me disse, calou fundo.
Há um mês, fiz um desabafo semelhante a outra amiga, reclamando de que eu já estava de saco cheio desta mentalidade mesquinha e tacanha que a sociedade brasileira mergulhou; desta política burra em que estamos atolados e do fato da minha profissão, na realidade o meu ofício, estar tão vilipendiada justamente por quem deveria mais brigar por ela: nós mesmos, os jornalistas.
Tenho sentido um certo enfado do Brasil muito grande, do Rio de Janeiro, minha cidade de nascimento e alma, principalmente. É, no popular, uma gigantesca falta de saco. Falta de saco para aturar as populares "espertezas", que são na realidade o cúmulo da falta de respeito e de educação. E que, se você não entrar no esquema, passa por idiota, otária ou a "metida a certinha". Estou sinceramente cansada disso.
Não pensem que eu acho que a melhor saída seja o aeroporto, embora tenha muita vontade de passar uma temporada fora da Terra Brasilis, aprendendo, vivendo outra vida, conhecendo mais e mais pessoas. Mas, penso que fica cada vez mais inviável vivermos esta realidade tão fake como uma nota de dois dólares. Isto cansa, desgasta, irrita, faz a gente perder o tesão em continuar aqui, faz a gente pensar em deixar a luta.
Parodiando os zapatistas, da vontade de gritar a plenos pulmões: Ya basta!!!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O mundo lá fora

Como se não bastasse ler no New York Times (NYT), de hoje (25/09), que o presidente de honra do meu partido (o PT) e presidente da República (dos Bananas) acha que não vê nenhuma prova contra o sr. José Dirceu, outra notícia vem da terra do Tio Sam – aliás, uma piada.
O presidente do Irã, aquela nação que executa homossexuais, sr. Mahmoud Ahmadinejad disse que em seu país não existiam homossexuais como nos EUA. Ele estava respondendo a uma pergunta de um estudante da Universidade Columbia (NY), onde fora convidado a dar uma palestra.
Bem, a galera caiu na gargalhada, alguns até vaiaram. Mas, pode até parecer que não dá pra levar um cara desses a sério, mas é bom não brincar com quem planeja ter uma bomba atômica e trata os homossexuais como lixo.
Acho que ele foi explícito em sua resposta: “não há homossexuais, porque nós os eliminamos” – foi exatamente isto o que ele quis dizer, sem meias palavras ocidentais e nem entrelinhas.
Por outro lado, o reitor da Universidade, Lee Bollinger, também foi de uma grosseria ímpar. Convidou o cara e tascou no discurso de abertura e apresentação do indivíduo agressões desnecessárias. Chamou-o de “ditador insignificante e cruel”.
Disse que, ao negar o Holocausto, Ahmadinejad age de forma "audaciosamente provocativa ou chocantemente ignorante". "Sinto o peso do mundo civilizado moderno desejoso de expressar repugnância àquilo que o senhor defende", disse Bollinger, que foi quase ovacionado.
Sinceramente, se o cara é um boçal, um ditador insignificante, por que foi convidado pra falar lá? Isto também foi uma ofensa a inteligência dos mortais lá presentes. Nós, ocidentais, sabemos ser extremamente grosseiros quando queremos.
Mas, o presidente do Irã não deixar passar em branco e acabou dando uma bofetada com luvas de pelica, como diria minha avó. Falou de cara: "Muitas partes do discurso dele foram insultos. Na verdade, respeitamos nossos estudantes e professores permitindo que eles façam seus próprios julgamentos". Nós, ocidentais, civilizados, que mantemos a imagem de respeitarmos os direitos humanos e os homossexuais, poderíamos dormir sem essa, vinda de um “ditador insignificante e cruel”.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A mensagem da Laura

Gente,
Eis aqui o comentário da escritora Laura Bacellar:
"muito bom o seu blog, Graça, achei seus comentários muito interessantes.bjo, Laura"
Tão vendo como este blog tá ficando chic? rs

terça-feira, 18 de setembro de 2007

ZÉLIA DUNCAN PARA MAIORES

Uma notícia publicada no GAY1 sobre a Parada Gay de Recife fez a minha alegria: o show de encerramento do evento foi com a cantora Zélia Duncan.
A notícia pode ter passado batida para muita gente, mas para mim representou um passo importante ao mostrar mais uma artista que adere às Paradas, considerando um movimento legítimo em que buscamos lutar por nossos direitos.
Muitos artistas não querem fazer shows em Paradas Gays por acharem que seus nomes e imagens ficarão associados aos homossexuais, fazendo com que muitos fãs e a própria mídia pensem que eles se limitam a um determinado público ou que estão "assumindo" uma suposta homossexualidade. Sem falar no velho discurso de algumas "celebs" de que não gostam de "levantar bandeiras".
Felizmente, isto está mudando. Marina Lima, Fernandinha Abreu, Preta Gil, Antonio Grassi e alguns poucos (por enquanto) compreendem que as Paradas, tirando o lado festeiro, também são um movimento político contra a discriminação e a necessidade de reconhecimento de milhões de pessoas que não são consideradas sequer cidadãos em seus direitos mais elementares.
Bem vinda, Zélia Duncan!