domingo, 18 de abril de 2010

A FELICIDADE TAMBÉM COMEÇA AQUI



Sem entender muito bem esses ritos funerários, que nem precisa dizer – acho desnecessários – fui lá eu, atendendo ao pedido da Tia Lili, encomendar uma coroa de flores para o enterro da mamãe.
Não sabia o que pedir, mas o vendedor solícito me mostrou fotos dos modelos de coroas e escolhi uma bonita, com flores amarelas e vermelhas, aproveitei pra incluir uns girassóis e umas rosas vermelhas.

Ele falou também que deveria ter uma faixa com alguns dizeres. Fiquei meio pateta, sem entender muito bem. Ele se esforçou pra me explicar quais as frases mais comuns – nada disso tinha a cara da minha mãe, da d. Nane.

Como explicar a alegria que eu estava sentindo? A emoção daquele momento em que eu via a minha mãezinha tão feliz, tão alegre, como ela sempre foi?

Pedi ao Mestre (Paramahansa Yogananda) que me inspirasse e aí saiu: “A felicidade também começa aqui”.
Pode parecer estranho a maioria de vocês que, em pleno velório da minha mãe, eu estivesse feliz. Mas, eu estava e como. Eu queria dançar. Uma alegria tão grande, eu não conseguia sentir tristeza. E não era só eu, a Ana (minha prima-irmã) também estava assim. Tia Lili ainda sofria pela irmã, mas aos poucos foi sentindo aquela alegria contagiante que acabou tomando conta de algumas pessoas que compreenderam que a morte não existe. Nossa vida não termina num simples corpo, encerrado dentro de um caixão. Tive a certeza ali, naquele momento.
Ok, vocês até poderão dizer que eu estava em estado de comoção e que não tinha atinado no que representava tudo aquilo, afinal minha mãe, aos 87 anos, flamenguista, bahiana, alegre, de bem com a vida, batalhadora, que adorava dançar, que amava música, que cozinhava maravilhosamente bem, que sempre tinha uma palavra de incentivo a quem quer que fosse, que não gostava de ver ninguém brigado, que tinha um coração grande (em todos os sentidos), que tinha um gênio danado, mas que viveu a vida com intensidade (uma semana antes de sua internação por um AVC isquêmico – o último – estava dançando rock de Elvis Presley comigo na sala) não estaria mais aqui.

Passamos desde o dia 15 de outubro de 2009, quando ela teve o primeiro AVC, que deixou seqüelas pequenas, mas perceptíveis, a viver cada dia como sendo único. Fizemos questão – as três – de curtir com ela todos os momentos, com muita alegria, porque afinal não saberíamos se haveria o dia seguinte. O aniversário dela no dia 30 de janeiro teve churrasco com direito a músicas de carnaval e ela resistiu bravamente até às 2 da manhã, quando conseguimos convencê-la a ir dormir (o que obviamente ela não fez, ficou na cama cantarolando baixinho as músicas, ouvindo o movimento lá fora).

Com uma mãe dessas, como ficar triste? Como lamentar a morte? Só se eu imaginasse que a vida terminasse aqui e ponto final.

No velório, tivemos rock (Elvis de novo!), samba, carnaval da Bahia (aqueles de Gil, Caetano e cia.), Padre Marcelo (que ela adorava) – as músicas que ela adorava. Tivemos salva de palmas pra ela que havia nos ensinado tanto. Tivemos reconciliações de pessoas que não se viam há anos, tivemos paz e alegria. Tivemos um céu lindo, um sol escaldante. Tudo como mamãe gostava. Portanto, dava pra ficar triste? Impossível!
Bem, pra todos vocês que foram; pra vocês que não puderam, mas que estavam lá em pensamento; pra aqueles que não conheceram a mamãe, mas ouviram as minhas inúmeras histórias dela (e como ela aprontava, principalmente com a minha querida Tia Sinoca – as duas eram do balocobaco! E também as dela com a Tia Lili, numa cumplicidade inacreditável para duas irmãs) e estavam lá também por mim; que me mandaram mensagens superafetuosas por celular ou e-mail, valeu e como!!!
Como já disse a várias pessoas: mãe é mãe e sempre vai fazer falta, não adianta. Tomei a resolução naquele momento de ser mais feliz ainda do que já sou. Acho que é o mínimo que posso dar de presente a ela.
Tudo ainda está muito recente (afinal, ela faleceu na quinta (15/04), com enterro na sexta (16/04). Ainda tenho muitas lágrimas pra derramar e creio que não cessará tão cedo. Mas, acreditem, não são de tristeza. Ela não quer isso. E eu também não.

Um beijo,
Graça
Meu Rio de Janeiro, 18 de abril de 2010 - Domingo de sol e céu azul!
(E o meu Botafogo campeão!)

12 comentários:

  1. Graça, sempre me emociono com as histórias de mulheres brasileiras do povão. e sempre que me acontece isso, a primeira imagem que me vem à mente é a do mulherio da ala das baianas de nossas escolas de samba.
    imagino eu ter uma mãe assim, como a sua. aí está a explicação (talvez a principal) para você ser essa pessoa especial.
    beijos afetuosos e viva o Botafogo. Vanda.

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  2. Graça,

    Você foi muito feliz na sua completa tradução de quem foi e quem é tia Nane! Não tenho dúvidas de que ela fará muitas festas no céu!

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  3. É isso aí, d.Graça!! Sinoquinha e Tia Nane estão comemorando o reencontro! E não esqueça de Verinha que também faz parte dessa tríade!

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  4. É isso aí, d.Graça!! Sinoquinha e Tia Nane estão comemorando o reencontro! E não esqueça de Verinha que também faz parte dessa tríade!

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  5. Graça!

    Comovente o texto sobre sua mãe!que bom q vc tenha essa visão da morte ou melhor da passagem ou grande viagem como dizem alguns...
    Nunca estive num velório com um tão tranquilo e porque não dizer tão alto astral.
    Parabéns pelo texto, pela mãe que a vida te deu e pela pessoa que ela formou : você
    Bjos,
    Marize

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  6. Só você, Graça, para fazer um texto(lindo)desse.
    Não conheci sua mãe, mas acredito que você traduziu fielmente o que ela foi na terra. Uma pessoa tão positiva e que você herdou direitinho isso dela.
    Se todos tivessem o conhecimento que você tem, o sofrimento, no que diz respeito a morte, seria bem menos doloroso. Um dia eu chego lá.
    Lágrimas são inevitáveis, lágrimas de saudade. Saudade a gente tem de quem se ama.
    Um beijo, Graça. Parabéns por ser essa pessoa tão espiritualizada e tranquila.
    Um beijo e Deus te abençõe.
    Silmara

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  7. Isso não é só um texto, é um pedaço de seu coração.

    Continuando a festa, dou Parabéns a essa maravilhosa demonstração de amor por sua mãe e para pessoas como eu que não tiveram o prazer de conhecê-la, deu para fazer uma idéia das coisas boas que ela fez por você (mesmo sendo puxão de orelha) e por muitos outros.

    Bjs
    Mirian

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  8. Gracinha, antes de mais nada, parabéns pela foto da tia Nane que você escolheu para abrir seu texto, e que me emocoinou muito. É a imagem da alegria e da irreverência que eram suas marcas registradas, e que ficam aqui como símbolo dessa Mãe que ela foi - sua, da Ana e de todas nós que tivemos o privilégio e o prazer de conviver um pouquinho com vocês.
    Parabéns por ter escolhido ser feliz em todos os momentos, mesmo nesse em que a tristeza e a saudade costumam aparecer, e tenho certeza de que ela está feliz por você.
    Aproveito para dizer "até breve" pra tia Nane, pois espero em algum momento reencontrá-la, com aquele olharzinho meio de lado e aquele sorriso maroto, dizendo: "Você está bem, não é, minha filha? Graças a Deus!" Será a deixa pra eu "correr pro abraço"...
    E como a morte é só a liberação do corpo, que ela continue feliz - e nós também!
    Beijos
    Berninha

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  9. Bem, fico feliz por seu depoimento. Até hoje só Tinha ido a uma festa de saudação de retorno ao verdadeiro lar uma única vez e achava que ninguém tinha esse animo de por musica e alegria para que o viajante siga feliz.
    Seja feliz nas recordações e nas lagrimas inevitáveis, faz bem para quem volta para casa e para quem fica aqui no planeta, ainda em processo evolutivo.

    Estou fora do Rio e entrando pouco na web e so soube hoje.

    Grande abraço e que o Guru te de todo acalanto que necessitas.

    Beijão

    Lyu

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  10. Ola!

    Só soube agora e fui ler seu blog. Deixei um comentário, mas confesso que não sei como fazer para ele aparecer no seu blog. Não entendo as orientações que ele dá.
    Sendo assim, deixo aqui meu grande abraço e uma observação: - Você é a cara da sua mãe!
    Estou viajando e entro de vez em quando.
    Beijão
    Lyu

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  11. Com certeza sua mãe está bem...Que bom Graça ter tido uma mãe tão cheia de Graça. Bj afetuoso, Sandra

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  12. Graça,

    adorei!!! Tua mãe era aquariana, entendi perfeitamente. Tb sou e é assim que quero que se sintam quando eu partir. Alegria pra quem viveu feliz! Isso só quem sabe o que veio fazer neste mundo é que consegue! Parabéns pela mãe que ela era e pela filha que tu és!

    Beijão, querida!

    ßetha

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Valeu!