Só pra não deixar passar em branco... (uma contribuição do meu amigo jornalista Fábio Grotz)
Graça
Março, mês da mulher: uma homenagem e um desabafo - Carla Rodrigues
http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/2341
Quando, em 1982, eu fui votar pela primeira vez, nem me passou pela cabeça agradecer às sufragistas dos anos 1930 no Brasil que, inspiradas pelos movimentos internacionais de reivindicação do direito ao voto feminino, tinham me garantido o direito de estar ali. Também não me ocorreu que, até a conquista das mulheres pelo direito ao voto, não havia democracia digna deste nome, porque todo governo era eleito deixando de fora metade da população, aquela que com frequência é chamada de “minoria”. Pensando assim, o direito das mulheres ao voto não beneficia somente a elas, mas a toda a sociedade.
Pelo mesmo caminho, as conquistas feministas por direitos iguais entre homens e mulheres deveriam ser saudadas como boas para toda a sociedade. Se não o são, é por haver aí uma série de equívocos e preconceitos infelizmente ainda em vigor. Em parte, eu diria que estes preconceitos dizem respeito à amplitude da pauta feminista. Enquanto as sufragistas lutaram pelo voto – um resultado concreto e objetivo – as feministas lutam por algo mais amplo, mais intangível, e portanto mais difícil de ser apreendido como resultado.
É verdade que, em 1982, quando fui votar para governador, o Brasil estava embalado pelos ventos democráticos, e se pode argumentar que, mais importante do que o voto feminino, conquistado aqui desde 1937, era a volta do direito ao voto, cassado pelo golpe militar. Assolado por uma ditadura, o país que voltada às urnas comemorava a anistia aos presos políticos, a volta do irmão do Henfil, e a conquista do voto feminino já era parte da história. Tendo ido votar com a naturalidade de quem acha óbvio que toda mulher é tão eleitora quanto todo homem, nunca prestei às sufragistas a devida homenagem.
E porque escolhi falar delas agora, nos avançados anos 10 do século 21?
Para retomar um problema que me parece ainda não resolvido em relação às feministas da segunda onda do feminismo. No Brasil, elas iniciaram a luta pelos direitos das mulheres ainda sob o signo da repressão do regime militar. Eram os anos 1970 e o início da segunda onda do feminismo se confunde com a militância contra a ditadura.
No bojo da reconstrução democrática vieram também as bandeiras de igualdade de direitos entre homens e mulheres, a entrada maciça das mulheres nas escolas e universidades, e consequentemente no mercado de trabalho.
Há apenas 150 anos as mulheres puderam ingressar nas escolas para estudar. Há apenas 50 anos uma mulher casada não podia viajar sem a autorização do marido. Há apenas 40 anos duas mulheres sozinhas não seriam aceitas numa mesa de bar ou restaurante. Há apenas 35 anos uma mulher tem direito a pedir o divórcio.
Acontece que, para a geração que foi para a universidade, para o mercado de trabalho, e para a vida emancipada a partir dos anos 1990, parece tão natural ter todos esses direitos quanto parecia para mim, em 1982, votar. É dessa naturalização que quero falar.
Quando vejo, nas ruas de qualquer grande cidade brasileira, um grupo de mulheres sentadas em torno de uma mesa de almoço ou jantar, sempre tenho vontade de dizer àquelas belas jovens senhoras que elas só podem estar ali porque as feministas dos anos 1970 lutaram por estes e outros direitos. E fico imaginando as reações possíveis.
Contra o termo feminista pesam muitos preconceitos. O primeiro e mais ridículo já foi objeto, para mim, de muitos embates: “Sou feminina, não feminista” é a maior idiotice que uma mulher pode dizer. Primeiro, porque a frase supõe uma oposição dos dois termos, o que nem de longe corresponde à realidade. Depois, porque “ser feminina”, a rigor, não quer dizer absolutamente nada, mas neste contexto pretende afirmar algo como “sou heterossexual, vaidosa, me cuido, sou bonita e não quero ser tachada de feminista”.
“Ser feminina”, a rigor, não quer dizer nada, porque supõe a possibilidade de estabilizar a “essência feminina” num conjunto de determinações dadas para as mulheres – em oposição àquelas atribuídas aos homens. Foi o que Rousseau e Kant pretenderam no século XVIII, por exemplo, ao dividir razão (masculina) e sensibilidade (feminina). “Ser feminina” no contexto desta resposta embaralha desde o ideal de essência até a construção cultural que define mulheres como “dóceis, frágeis, sensíveis”.
É como se “ser feminina” fosse algum tipo de qualidade intrínseca às mulheres que as feministas teriam negado. Neste contexto do “sou feminina, não feminista”, a única característica que está sendo suposta como intrínseca é a submissão aos homens.
Por fim, “ser feminina” não quer dizer nada também porque, nas definições de feminino que não pretendem essencializar o termo, “feminino” é desestabilização, abalo, instabilidade, aquilo que escapa a toda determinação, certeza e ideal de verdade. Que o masculino muito recentemente também possa ser pensado como impossível de ser estabilizado é tema para outro artigo, a discussão não vai caber aqui).
Fechado o parêntese, volto à cena da mesa de restaurante em que quatro jovens se reúnem, bebem, comem, conversam. Outra resposta possível de ouvir delas seria: “não somos feministas porque não somos contra os homens”.
Pois é, nós, feministas, também não. Somos contra a opressão dos homens sobre as mulheres, dada em estruturas de sociedades patriarcais que subjugam homens e mulheres, ainda que em medidas diferentes, ao obrigá-los a papéis pré-determinados. O movimento feminista também libertou os homens do lugar de autoridade e de todas as consequências nefastas que este lugar exige, com tudo que ele comanda: o afastamento obrigatório da sensibilidade é apenas o mais visível e cruel.
Por fim, nesta mesa de restaurante se pode ouvir o que considero o argumento mais cínico: “não somos feministas porque nunca fomos discriminadas por sermos mulher”. Claro, não foram discriminadas porque se beneficiam das conquistas de um movimento que desqualificam, e o fazem sem pretender abrir mão dos direitos que usufruem.
Produzem, assim, um apagamento da luta feminista pelo caminho mais contraditório, qual seja, afirmando o valor de seus resultados e conquistas, mas negando ao movimento o mérito por eles.
É como diz a humorista Maitena: “Se não fossem as feministas, nós estaríamos passando roupa”. O perverso da sociedade brasileira é que, para que muitas mulheres estejam trabalhando, estudando, ou mesmo jogando conversa fora na mesa de um restaurante, ainda é preciso que outras estejam trabalhando como domésticas, passando a roupa de quem não gostaria de estar obrigada ao papel único de dona de casa do qual o feminismo as libertou. Esta é uma herança da sociedade escravocrata que ainda estamos por enfrentar, e que produz um duplo apagamento, porque trata de mulheres negras cujo lugar de submissão ainda está naturalizado na sociedade.
Curiosamente, no entanto, todas estas mulheres que negam o feminismo e suas conquistas, trocam felicitações no 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Eu adoraria saber o que pretendem estar afirmando com as felicitações se não o fato de poderem ser donas dos seus destinos como nunca puderam antes. Porque, se for assim como suspeito que seja, é preciso homenagear as sufragistas e as feministas. No dia 8, no mês de março, e em todos os dias das nossas vidas.
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