Para Graça, com carinho,
Cristiane
Falar, calar
"Ando cansada de frases, mas elas
são a arma que me resta, a ferramenta
com que nasci, o recurso que o destino
colocou a meu dispor, mesmo quando
as emoções se cansam"
Hoje eu falo de silêncio. Eu, que amo as palavras, hoje fico nos
espaços brancos e nas entrelinhas. Fico ausente, estou ausente embora
de longe siga pelo milagre da tecnologia tudo o que acontece onde me
lêem neste instante.
Ausente-presente como tantas vezes tantas pessoas.
Nas histórias que relato ou invento, hoje não me interessam tanto as
tramas e os personagens: somos todos sombras que andam de um lado para
outro, aparecem e desaparecem em quartos, corredores, jardins. Caem de
escadas, jogam-se no poço, naufragam como rostos ou ratos.
A mim seduzem palavras e silêncios, e jeitos de olhar. O formato de
uma boca melancólica, ou o baixar de uma pálpebra que esconde o desejo
de morrer ou de matar, ódio ou desamparo, hipocrisia, ah, o olhar
sorrateiro, o estrábico olhar dos mentirosos.
A mim interessam as coisas que normalmente ninguém valoriza. Porque o
real está no escondido. Por isso escrevo: para esconjurar o avesso das
coisas e da vida, de onde nos vem o medo, que impulsiona como a
esperança.
Nas relações amorosas, sou fascinada pela fração de segundo, o lapso
mínimo em que os olhares se desencontram e a palavra que podia ter
sido pronunciada se recolhe por pusilanimidade, egoísmo ou
autocompaixão. E a cumplicidade se rompe e a gente se sente sozinha.
O caminho do desencontro é ladrilhado de silêncios, quando se devia
falar, e de palavras quando o melhor teria sido ficar calado: e a
gente sabia, ah, sim, sabia. Pior: é ladrilhado de gestos que não
foram feitos quando o outro tanto precisava.
E no silêncio o peso da omissão, cumplicidade com o erro, se agiganta.
• • •
Tenho falado muito em minha vida, tenho escrito talvez demais.
Nem sempre acerto o tom, nem sempre encontro as palavras,
eventualmente magôo a quem amo e aliso a quem desejava censurar.
Palavras são animais esquivos, ora belos, ora mortais. Ninguém os
domestica de verdade, ninguém consegue fugir ao seu poder. Mas nem
sempre sabemos o poder que elas têm e concedem.
Povos inteiros são iludidos com palavras grandiosas cujo alicerce era
areia movediça; pessoas, famílias, sofrem pela palavra certa que não
veio quando era esperada, ou chegou e estava vazia de conteúdo.
Ainda acredito que o ser humano não é essencialmente burro nem
perverso, e isso inclui governos e autoridades. Mas perturba-me o que
andam fazendo conosco: não temos poder, estamos ameaçados e
desinformados do que se passava e se passa, nossos ouvidos são curtos
para a vastidão dos bastidores com cenários acumulados, tudo falso,
tudo papelão e tinta e meandros que nem sonhamos.
Ando cansada de frases, mas elas são a arma que me resta, a ferramenta
com que nasci, o recurso que o destino colocou a meu dispor, mesmo
quando as emoções se cansam.
Mas não encontro a palavra certa nem o silêncio adequado para falar,
neste momento, nesta folha de papel, longe que estou dos
acontecimentos da terra que escolho todos os dias para viver.
Valem pensamentos?
Pensamentos valem, cheios do desejo de que a gente não seja
descartável, nossa história não se anule e a covardia não impeça a
verdade: aquela por trás das palavras ocas e dos silêncios
sorrateiros.
Que os pensamentos bons e as idéias saudáveis nos levem a dar em
conjunto um grande grito transformador:
Assim a gente não quer mais!!!!!!!!!!!!!
Lya Luft
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Valeu!