Essa eu tirei do meu antigo "Questão de Atitude" e é de 2004. Virão outras, aguardem... hehehehehehe.
Outra coisa é que esse blog está virando uma babel, tenho publicado tudo e mais alguma coisa, sem uma linha definida. Não se preocupem, é pra testar todas as formas e aproveitar o melhor delas.
Bem, divirtam-se!!!
Graca
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TURISTA!!!
Quem me conhece, sabe que sou carioca e amo a minha cidade. Mesmo morando fora do Rio, continuo mantendo o meu amor e aqueles traços culturais que fazem a gente se identificada como carioca onde quer que estejamos – quer dizer, eu acho, né?
Neste sexta/sábado, no Baile do Olímpico (em Copacabana), senti-me turista pela segunda vez em minha vida, e o pior, dentro da minha cidade. Acreditem, é uma sensação muito estranha.
A primeira vez em que isto ocorreu já se vão uns sete anos. Eu trabalhava num jornal e fui fazer uma cobertura em Quintino (subúrbio do Rio), na escola técnica ferroviária. Decidi pegar o trem na Central para ir mais rápido.
Entrei no “direto” (a primeira parada seria justamente em Quintino, ao invés do “parador”, que teria quatro ou seis paradas antes do meu destino). Bem, aos poucos – e não foi ilusão – percebi o olhar das pessoas em mim. Não era pelas roupas, mas o meu olhar eternamente curioso, que mirava a tudo e a todos, deixou claro para as pessoas que eu não era do “pedaço, não tinha nada a ver com aquilo ali.
Foi uma sensação tão estranha que senti ao perceber-me sendo vista como uma turista, uma estrangeira em minha própria cidade, que para eles estava passeando em um trem da Central. Senti-me uma turista japonesa!
Fiquei arrasada. Logo eu tão engajada, que se mete nos buracos “mais chão” de qualquer lugar, sem problema algum. Logo eu que sou negra e não me sentia distante daquelas pessoas que pegavam trem todos os dias. Putz! Aquilo foi duro pra caramba. Nunca mais esqueci aquela sensação de me sentir uma estrangeira na minha própria cidade!
Bem, no baile da Mary foi a mesma coisa. Pelo menos, foi hilária a situação. Parei de dançar e sentei pra conversar com a Priscila (da Lelist), ficando meio de costas para a pista de dança, quase não vendo quem se aproximava.
Conversa vai, conversa vem e uma moça linda pôs sua bolsa na cadeira vaga ao lado e me puxou pelo braço pra dançar. Um tanto quanto surpresa, fui.
Parêntesis: rolava muita música dos anos 70/80. Eu, em geral, não paro. Mas, como tenho me sentindo muito cansada, volta e meia dava uma paradinha. Independente de também não parar, admito que sou um pé de chumbo dançando. Misturo os pés com as mãos, pulo muito, sacolejo pra cá e pra lá tentando me adequar ao ritmo. Dançar junto, então, é uma negação. A duas tudo funciona (e muito bem, diga-se!). Mas, no meio da multidão, sou um fracasso retumbante, mais dura que um tijolo! Apesar deste “prontuário”, me arrisquei.
Logo avisei a aquela mulher lindíssima, típica mulata globeleza, com um sorriso daqueles: “Olha, eu não sei dançar junto”. Ela escancarou um sorriso e falou: “Isto não é problema. É só sentir a música”, e como ela sentia!
Gente, foi a partner que qualquer uma gostaria de ter. Jogou-me pra lá, pra cá, girou comigo pra esquerda, pra direita... Eu ficava até meio tonta, mas ia me adequando... Ela me puxava pra aqui, me empurrava pra acolá e eu indo. Numa leveza impressionante.
Freqüentemente eu perdia o ritmo, mas ela entrava no meu ritmo acompanhando o meu descompasso. Eu me sentia a própria turista dançando com a mulata de show, desajeitada toda vida, esbarrava nos outros, soltava o braço quando não era pra soltar, girava ao contrário. Mas, ela ali firme e com aquele sorriso encantador.
A moça pegava firme, e como pegava. Pensei: “Eba! Que a coisa tá ficando animada!”. Eu já tava ficando sem fôlego, mas me esforçava para superar minhas deficiências.
A dança foi ficando animada. A Globeleza (com maiúscula, porque ela merece!) encoxava legal e eu, a própria turista sem fôlego, sem saber o que fazer com as mãos, os braços e os pés. A minha timidez atávica!
A Globeleza sabia me levar e como... Tinha uma leveza e fazia milagres de Fred Astaire comigo. Mesmo assim, eu continuava a turista dura, que se confundia com os passos e errava, muito mais que acertava. Ela não desistia (ainda bem!). Por fim, em uma parada nas músicas, com quase meio palmo de língua pra fora, desculpei-me e dei um jeito de sentar. Antes, não deixe de agradecer, beijando a mão daquela dama que me fez flutuar, mesmo que desajeitadamente naquela pista.
Quinta-feira, Outubro 14, 2004
Hehehe...lógico que você sabe quem sou. O meu estilo jamais poderia confundir uma profissional com o seu potencial. É uma honra você se lembrar...rs. Não precisava ter tirado aquela observação, sei que você concorda que estão matando a música brasileira. Acompanho o enterro dela todos os dias.
ResponderExcluirA situação sobre os comentários é realmente séria. Existe uma campanha com a frase " Faça um brogueiro feliz, comente." Bem apropriado, não acha?
Creio ser uma incoerência entrar num blog, ler e se omitir. Como acho uma incoerência ficar voltando atrás.
P.S: Deixo duas palavras para reflexão:
Consciência e Humildade.
Valeu.
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluirOi,Graça,só te vi duas vezes quando fui ao Rio (sou de SP).
ResponderExcluirmas tenho um palpite sobre o por quê você se sente como turista na sua cidade tão amada, tão brilhante, tão escandalosamente linda!!!
é que você olha para sua cidade de duas formas.com os olhos brilhantes de alegria, mas também com os olhos tranquilos de uma hinduista. beijos afetuosos. Vanda.
Pessoal,
ResponderExcluirComentário da minha amiga (e grande jornalista) Vanda:
UM CERTO OLHAR
que maravilha dançar com essa Globeleza, hein!!! isso é só para quem tem muiiiiiiiita sorte.
Mas quero falar da sua sensação de turista sendo carioca da gema. é bom esclarecer que vi a Graça duas vezes quando fui ao Rio (sou de SP).
Daí posso dar um palpite.
como qualquer carioca, seus olhos devem brilhar de alegria com essa cidade escandalosamente linda.
mas você tem um segundo olhar, que não é pra qualquer uma. É o olhar tranquilo e sereno de uma hinduista que eu conheci.
beijos afetuosos. Vanda.
Adorei!
ResponderExcluirLyu
Adorei!
ResponderExcluirLyu