quarta-feira, 21 de maio de 2008

ATUALIDADES (i)

Nestes tempos bicudos, onde a novidade é peça de museu, a Rosana fez questão de guardar e me dar o caderno Ela, d´Globo, do dia 26 de abril de 2008, que tem uma reportagem extensa sobre nós, lésbicas. O título não poderia ser mais provocativo: “Estou lésbica”.
Na chamada de capa está: “Histórias de jovens cariocas que procuram parceiros independentemente do sexo deles e acabam namorando mulheres”.
Não muito aleatoriamente, decidi pescar algumas frases que ilustram a matéria (apenas não colocarei o nome completo das moças). Aqui vão elas:

- Não existe sexualidade. Existem situações eróticas – diz JF, 28 anos (...)
J. é o retrato de um grupo de jovens entre 20 e 30 e poucos anos para quem definir sua sexualidade é careta demais. Ou melhor, tradicional, porque careta, na gíria delas, é mulher que só gosta de homem.

- No momento sou gay, nada é previsível. Posso conhecer um homem amanhã e me apaixonar – diz J, 26 anos.

- Nunca enxerguei esse meu desejo como um clichê homossexual. (...) Eu me apaixonei pela pessoa J, não por ela ser uma mulher. Me encantei por sua delicadeza, inteligência, sensibilidade, dificuldades, história de vida (palavras de P, namorada de J)
(Detalhe segundo a reportagem, as duas (J e P) não assumiram seu namoro perante a família: “J e P são duas mulheres que, apesar de assumidas, em seu grupo de amigos, sejam eles “caretas” ou não, esconderam o namoro da família.”)

- Foi tão legal quanto ficar com um homem, diz G (27 anos), que namora meninos e meninas.

- Ficar com mulher é mais bacana, mas transar com homens é melhor (I, 23 anos).

- Eu gosto de gente, de seres humanos bacanas – explica I (...)

Minha resposta a esta matéria d´Globo é este artigo que escrevi em junho de 2003, para o GLSPLANET, quando inaugurei a coluna Topassad@ (para acessar todos os artigos é só ir lá: www.glsplanet.com/topassad@).
Nunca pensei que eu fosse tão atual! (Ou tão arcaica – rs)


“BANDIDO É BANDIDO. POLÍCIA É POLÍCIA”

Nos anos 70, havia um ladrão de bancos que ficou famoso, principalmente, pela sua inteligência e ousadia – Lúcio Flávio, que foi o primeiro a gritar contra os policiais que começavam a extorquir bandidos. Era dele a famosa frase acima.
Lembrei-me dela nos últimos dias ao ver pipocando na mídia, artigos e matérias sobre a “nova homossexualidade” (ou será “pan-sexualidade”?) que agita o século XXI.
Para minha surpresa, vejo várias lésbicas namorando homens “descolados” e muitos gays namorando mulheres “descoladas”; “tipo assim”, que não se importam que seus pares sejam homossexuais.
Tenho 44 anos e sou da época em que “sapatão” era como chamavam todas as “mulheres que amavam outras mulheres”. O termo era (e é) pra lá de pejorativo e preconceituoso, mas naquela época mantínhamos a certeza de que sabíamos perfeitamente quem era quem, ou melhor, quem gostava de quem. Na época, era fundamental que nos apegássemos a isso, era o nosso auto-reconhecimento.
Agora, com as relações tão fluidas e superficiais, o “sapatão” ou a “bicha” (outro termo pra lá de preconceituoso) corre o risco de virar peça no museu de cera de Madame Tussot, na Inglaterra.

“Eu gosto da pessoa, da personalidade”
Então tá, ficamos todos combinados assim: dependendo da lua, da trajetória de Saturno, da cotação do dólar ou da variação da bolsa de valores, direcionamos nosso desejo sexual naquele dia. Tem dia sim, que eu quero ser lésbica e aí procuro uma garota bacana pra passar à noite. Tem dia não, que estou na TPM, e prefiro afogar minhas mágoas com um garoto legal que pintar no pedaço.
É claro que banalizei a situação, mas me parece que as relações estão banalizadas. O que importa são as sensações e não os sentimentos.
Para o movimento homossexual, creio que isso seja uma ducha de água geladíssima. Afinal, anos de luta para afirmar o respeito às diferenças, para tudo acabar num “canibalismo erótico”, sem maiores conseqüências. Parece que não há sexualidades e sim seres-objetos de consumo – o consumo do que está na moda. Então, é “fashion” ser assim.
É a solidão que faz isso? É esse apetite sexual gerado pela mídia de que todos têm que ir pra cama com 10 por dia? O que é isso, afinal? Será que se gosta de fato “da pessoa, da personalidade” ou se gosta simplesmente das sensações geradas – superficiais? -, sem nenhum envolvimento afetivo?
Repetem-se as mesmas cantilenas machistas e preconceituosas. Quem nunca ouviu lésbicas jovens criticarem “os sapatões”? Ou gays jovens dizerem que não gostam de “bichas”? Fico pra lá de incomodada (como minha avó!) com essas posturas supostamente “mudernas”, mas que encerram questões tão velhas quanto o mundo, como o preconceito e a discriminação.

Quem sou eu?
É difícil ser lésbica e ser gay nesta sociedade. Ainda é, apesar de tantas vitórias. Então, para driblar o preconceito e a discriminação, escorregamos para situações (ou relações) mais ou menos toleradas socialmente. Isso eu diria num primeiro momento.
Sinceramente, afetiva e emocionalmente, o que mais incomodaria você: ser trocada por outra ou por outro? (a mesma pergunta vale para os rapazes). Seria a traição ou a negação do seu desejo? Você se sentiria diminuída por ser mulher ou por ter sido abandonada?
Não se trata de ter pênis (para as mulheres) ou ter vagina (para os homens). Isso não fará que uma mulher torne-se lésbica ou um homem gay. Trata-se de uma relação afetiva e não uma sensação momentânea. Trata-se de viver, conviver e lidar com a pessoa, com o sentimento. É isso que está em jogo. Contudo, numa sociedade hedonista como a nossa, esse novo conceito de “homossexualidade” (e porque não dizer, de heterossexualidade também) cai como uma luva. Não há diferenças. É o corpo que impera. E se somos apenas corpo – esse objeto inanimado, sem alma, sem sentimentos, não há necessidade de identidade ou de personalidade. Somos descartáveis.
Então, vamos reclamar dos “sapatões” sempre tão masculinizados e das “bichas”, sempre tão feminilizadas. Esses corpos não servem para serem expostos nessa vitrine.
Eu estava sendo preconceituosa ao acreditar que lésbicas só podem e devem transar com outras lésbicas (o mesmo valendo para os rapazes). Esta é a outra face daquela discriminação em que jovens lésbicas e gays dizem não gostar de “sapatões” e “bichas”. Caí num rótulo, quando o principal é o que estão fazendo do meu sentimento, do meu corpo. Eles não são objetos. E aí sim, “bandido é bandido. Polícia é polícia”.

Graça Portela

2 comentários:

  1. Graça, seriam tantos os comentários, que vou me restringir a um ou dois.
    acho horrível que lésbicas e gays (e são muitos) não respeitem a bissexualidade. mas também acho horrível homossexuais que, achando barra assumirem sua homossexualidade, prefiram algo mais soft e até mais "in" como a bissexualidade.
    me parece que as pessoas que estão no artigo preferem uma coisa mais difusa ainda, serem apenas descoladas, mudernas. se elas se declarassem bissexuais mesmo, não haveria problema. mas acontece que, mesmo sendo mais soft, a bissexualidade também pode ser barra de enfrentar, dependendo dos ambientes nos quais a pessoa circula.
    vou chutar uma vez: me parece que essa diluição está associada a um processo mais amplo. nessa fase neoliberal do capitalismo, todas as relações (família, amizades, amor etc. etc.) ficaram mais rarefeitas, com um grau maior ou menor de indefinição. por que a orientação sexual fugiria disso???
    vou chutar duas vezes: falando em processo mais amplo, penso que a atitude dessas pessoas denota a dificuldade que os jovens têm hoje de se transformarem em adultos e assumirem todas as responsabilidades que isso acarreta. boa parte dos jovens continua na casa dos pais, mesmo depois de terminarem a faculdade e terem seu emprego.
    Vanda

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  2. Graça, infelizmente esta não é a época que gostaria de estar vivendo.
    Sou movida a emoções! Não entendo o tesão sem um sentimento.
    Sou do tempo em que antes de um beijo, pegava na mão primeiro. Tinha que ter muito olho no olho. Primeiro beijava-se com olhos, muito! Só depois acontecia o beijo. E o complemento, fazer amor, só dias depois...
    Isto ficou no passado!
    Não gosto de criticar os tempos modernos. Realmente acho que tudo hoje em dia ficou demais.
    Me recolhi para meu canto pois essa vida não é para mim. Diz bem o ditado " Os encomodados é que se retirem."
    Não sei se existe por ai alguma pessoa que queria viver algo mais emocional. A vida é um caminho estranho e difícil.
    É prejudicial ser sentimental em tempos de sexo livre.
    Acho que a bissexualidade existe por causa das nossas vidas passadas. Não estou afirmando, é apenas o meu conceito sobre isto! Alguns estão simplesmente "bi" no momento. Não dá para entender a cabeça do ser humano.
    Uma lésbica é uma lésbica! Não tem como ser de outra forma.

    Ps: Mudando de assunto! Só hoje me dei conta, justamente quando esta va lendo alguns textos do Paramahansa Yogananda, eu entendi o que aconteceu: " TUDO QUE É DEMAIS É MOLÉSTIA." Num estalo me toquei que os e-mails estavam demais.

    Adorei seu texto.
    Beijos.
    Astridy.

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Valeu!