Pessoal,
Este blog - Cortejo da InSanidade (http://cortejodainsanidade.wordpress.com/) - foi escrito por uma dessas novas promessas do jornalismo tupiniquim. Seu nome é Rayssa Medeiros, ela é estudante de jornalismo lá na Paraíba, mas escreve como alguém que já se formou há alguns milhares de anos.
Leiam o texto Felicidade comprimida e depois comentem aqui e lá o que vocês acharam.
Um beijo,
Graça
PS: Um segredo: ela é minha sobrinha do Nordeste...rs
Palavras ao éter É um blog para quem tem atitude perante a vida. Ele foi criado inicialmente por minha amiga Kharla Tavares (POA/RS).
sexta-feira, 23 de maio de 2008
SAWABONA SHIKOBA
O texto abaixo, recebi de uma amiga, Mirian. Decidi postar aqui, porque ele é muito bonito e cala fundo. Aproveitem-no e "Sawabona Shikoba" para tod@s nós!
===============================================================
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio.
As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher.
Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante.
Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas.
Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras.
O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração.
Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma.
É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo.
O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro,
seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes temos de aprender a nos perdoar a nós mesmos...
Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer: “Eu Te respeito, eu te Valorizo, você é importante pra mim”.
Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é: “Então eu existo pra você”
Texto de :: Flávio Gikovate
Médico Psicanalista
===============================================================
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio.
As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher.
Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante.
Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas.
Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras.
O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração.
Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma.
É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo.
O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro,
seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes temos de aprender a nos perdoar a nós mesmos...
Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer: “Eu Te respeito, eu te Valorizo, você é importante pra mim”.
Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é: “Então eu existo pra você”
Texto de :: Flávio Gikovate
Médico Psicanalista
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Mudei de nome
Após ler que quem supostamente (isto é para evitar processos!) estaria por trás da saída da Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, seria a Dilma Houseff, ministra da Casa Civil, pensei: “quero morrer amiga da Dilma”.
Dazinha, rápida no gatilho, falou: “Você é amiga? Pois eu sou irmã dela!”
Dias depois, li na Istoé a movimentação política do ex-ministro José Dirceu. Pensei: “além de amiga da Dilma, tenho que ser amiga do Zédirceu e, a Dazinha, irmã dele.”
Hoje, pela manhã, decidi radicalizar: mudarei meu nome para DRAÇA, assim fica mais fácil estar mais próxima dos dois.
PS.: Dazinha não precisa mudar de nome, ela já se chama Darcy.
Dazinha, rápida no gatilho, falou: “Você é amiga? Pois eu sou irmã dela!”
Dias depois, li na Istoé a movimentação política do ex-ministro José Dirceu. Pensei: “além de amiga da Dilma, tenho que ser amiga do Zédirceu e, a Dazinha, irmã dele.”
Hoje, pela manhã, decidi radicalizar: mudarei meu nome para DRAÇA, assim fica mais fácil estar mais próxima dos dois.
PS.: Dazinha não precisa mudar de nome, ela já se chama Darcy.
Ouviram do Ipiranga
A Vanda gritou de lá, das margens do Ipiranga, que o jornalismo tapuia “precisa de mais Brasil e menos Brasília”. Ela tem razão.
BAILARINA
Uma poesia infantil da Cecília Meirelles, que eu peguei lá no Blog do Nassif e que vai para a minha sobrinha linda, Victória Marina, ou apenas Vic.
Bailarina (Cecília Meirelles)
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os ohos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
Bailarina (Cecília Meirelles)
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os ohos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.
ATUALIDADES (i)
Nestes tempos bicudos, onde a novidade é peça de museu, a Rosana fez questão de guardar e me dar o caderno Ela, d´Globo, do dia 26 de abril de 2008, que tem uma reportagem extensa sobre nós, lésbicas. O título não poderia ser mais provocativo: “Estou lésbica”.
Na chamada de capa está: “Histórias de jovens cariocas que procuram parceiros independentemente do sexo deles e acabam namorando mulheres”.
Não muito aleatoriamente, decidi pescar algumas frases que ilustram a matéria (apenas não colocarei o nome completo das moças). Aqui vão elas:
- Não existe sexualidade. Existem situações eróticas – diz JF, 28 anos (...)
J. é o retrato de um grupo de jovens entre 20 e 30 e poucos anos para quem definir sua sexualidade é careta demais. Ou melhor, tradicional, porque careta, na gíria delas, é mulher que só gosta de homem.
- No momento sou gay, nada é previsível. Posso conhecer um homem amanhã e me apaixonar – diz J, 26 anos.
- Nunca enxerguei esse meu desejo como um clichê homossexual. (...) Eu me apaixonei pela pessoa J, não por ela ser uma mulher. Me encantei por sua delicadeza, inteligência, sensibilidade, dificuldades, história de vida (palavras de P, namorada de J)
(Detalhe segundo a reportagem, as duas (J e P) não assumiram seu namoro perante a família: “J e P são duas mulheres que, apesar de assumidas, em seu grupo de amigos, sejam eles “caretas” ou não, esconderam o namoro da família.”)
- Foi tão legal quanto ficar com um homem, diz G (27 anos), que namora meninos e meninas.
- Ficar com mulher é mais bacana, mas transar com homens é melhor (I, 23 anos).
- Eu gosto de gente, de seres humanos bacanas – explica I (...)
Minha resposta a esta matéria d´Globo é este artigo que escrevi em junho de 2003, para o GLSPLANET, quando inaugurei a coluna Topassad@ (para acessar todos os artigos é só ir lá: www.glsplanet.com/topassad@).
Nunca pensei que eu fosse tão atual! (Ou tão arcaica – rs)
“BANDIDO É BANDIDO. POLÍCIA É POLÍCIA”
Nos anos 70, havia um ladrão de bancos que ficou famoso, principalmente, pela sua inteligência e ousadia – Lúcio Flávio, que foi o primeiro a gritar contra os policiais que começavam a extorquir bandidos. Era dele a famosa frase acima.
Lembrei-me dela nos últimos dias ao ver pipocando na mídia, artigos e matérias sobre a “nova homossexualidade” (ou será “pan-sexualidade”?) que agita o século XXI.
Para minha surpresa, vejo várias lésbicas namorando homens “descolados” e muitos gays namorando mulheres “descoladas”; “tipo assim”, que não se importam que seus pares sejam homossexuais.
Tenho 44 anos e sou da época em que “sapatão” era como chamavam todas as “mulheres que amavam outras mulheres”. O termo era (e é) pra lá de pejorativo e preconceituoso, mas naquela época mantínhamos a certeza de que sabíamos perfeitamente quem era quem, ou melhor, quem gostava de quem. Na época, era fundamental que nos apegássemos a isso, era o nosso auto-reconhecimento.
Agora, com as relações tão fluidas e superficiais, o “sapatão” ou a “bicha” (outro termo pra lá de preconceituoso) corre o risco de virar peça no museu de cera de Madame Tussot, na Inglaterra.
“Eu gosto da pessoa, da personalidade”
Então tá, ficamos todos combinados assim: dependendo da lua, da trajetória de Saturno, da cotação do dólar ou da variação da bolsa de valores, direcionamos nosso desejo sexual naquele dia. Tem dia sim, que eu quero ser lésbica e aí procuro uma garota bacana pra passar à noite. Tem dia não, que estou na TPM, e prefiro afogar minhas mágoas com um garoto legal que pintar no pedaço.
É claro que banalizei a situação, mas me parece que as relações estão banalizadas. O que importa são as sensações e não os sentimentos.
Para o movimento homossexual, creio que isso seja uma ducha de água geladíssima. Afinal, anos de luta para afirmar o respeito às diferenças, para tudo acabar num “canibalismo erótico”, sem maiores conseqüências. Parece que não há sexualidades e sim seres-objetos de consumo – o consumo do que está na moda. Então, é “fashion” ser assim.
É a solidão que faz isso? É esse apetite sexual gerado pela mídia de que todos têm que ir pra cama com 10 por dia? O que é isso, afinal? Será que se gosta de fato “da pessoa, da personalidade” ou se gosta simplesmente das sensações geradas – superficiais? -, sem nenhum envolvimento afetivo?
Repetem-se as mesmas cantilenas machistas e preconceituosas. Quem nunca ouviu lésbicas jovens criticarem “os sapatões”? Ou gays jovens dizerem que não gostam de “bichas”? Fico pra lá de incomodada (como minha avó!) com essas posturas supostamente “mudernas”, mas que encerram questões tão velhas quanto o mundo, como o preconceito e a discriminação.
Quem sou eu?
É difícil ser lésbica e ser gay nesta sociedade. Ainda é, apesar de tantas vitórias. Então, para driblar o preconceito e a discriminação, escorregamos para situações (ou relações) mais ou menos toleradas socialmente. Isso eu diria num primeiro momento.
Sinceramente, afetiva e emocionalmente, o que mais incomodaria você: ser trocada por outra ou por outro? (a mesma pergunta vale para os rapazes). Seria a traição ou a negação do seu desejo? Você se sentiria diminuída por ser mulher ou por ter sido abandonada?
Não se trata de ter pênis (para as mulheres) ou ter vagina (para os homens). Isso não fará que uma mulher torne-se lésbica ou um homem gay. Trata-se de uma relação afetiva e não uma sensação momentânea. Trata-se de viver, conviver e lidar com a pessoa, com o sentimento. É isso que está em jogo. Contudo, numa sociedade hedonista como a nossa, esse novo conceito de “homossexualidade” (e porque não dizer, de heterossexualidade também) cai como uma luva. Não há diferenças. É o corpo que impera. E se somos apenas corpo – esse objeto inanimado, sem alma, sem sentimentos, não há necessidade de identidade ou de personalidade. Somos descartáveis.
Então, vamos reclamar dos “sapatões” sempre tão masculinizados e das “bichas”, sempre tão feminilizadas. Esses corpos não servem para serem expostos nessa vitrine.
Eu estava sendo preconceituosa ao acreditar que lésbicas só podem e devem transar com outras lésbicas (o mesmo valendo para os rapazes). Esta é a outra face daquela discriminação em que jovens lésbicas e gays dizem não gostar de “sapatões” e “bichas”. Caí num rótulo, quando o principal é o que estão fazendo do meu sentimento, do meu corpo. Eles não são objetos. E aí sim, “bandido é bandido. Polícia é polícia”.
Graça Portela
Na chamada de capa está: “Histórias de jovens cariocas que procuram parceiros independentemente do sexo deles e acabam namorando mulheres”.
Não muito aleatoriamente, decidi pescar algumas frases que ilustram a matéria (apenas não colocarei o nome completo das moças). Aqui vão elas:
- Não existe sexualidade. Existem situações eróticas – diz JF, 28 anos (...)
J. é o retrato de um grupo de jovens entre 20 e 30 e poucos anos para quem definir sua sexualidade é careta demais. Ou melhor, tradicional, porque careta, na gíria delas, é mulher que só gosta de homem.
- No momento sou gay, nada é previsível. Posso conhecer um homem amanhã e me apaixonar – diz J, 26 anos.
- Nunca enxerguei esse meu desejo como um clichê homossexual. (...) Eu me apaixonei pela pessoa J, não por ela ser uma mulher. Me encantei por sua delicadeza, inteligência, sensibilidade, dificuldades, história de vida (palavras de P, namorada de J)
(Detalhe segundo a reportagem, as duas (J e P) não assumiram seu namoro perante a família: “J e P são duas mulheres que, apesar de assumidas, em seu grupo de amigos, sejam eles “caretas” ou não, esconderam o namoro da família.”)
- Foi tão legal quanto ficar com um homem, diz G (27 anos), que namora meninos e meninas.
- Ficar com mulher é mais bacana, mas transar com homens é melhor (I, 23 anos).
- Eu gosto de gente, de seres humanos bacanas – explica I (...)
Minha resposta a esta matéria d´Globo é este artigo que escrevi em junho de 2003, para o GLSPLANET, quando inaugurei a coluna Topassad@ (para acessar todos os artigos é só ir lá: www.glsplanet.com/topassad@).
Nunca pensei que eu fosse tão atual! (Ou tão arcaica – rs)
“BANDIDO É BANDIDO. POLÍCIA É POLÍCIA”
Nos anos 70, havia um ladrão de bancos que ficou famoso, principalmente, pela sua inteligência e ousadia – Lúcio Flávio, que foi o primeiro a gritar contra os policiais que começavam a extorquir bandidos. Era dele a famosa frase acima.
Lembrei-me dela nos últimos dias ao ver pipocando na mídia, artigos e matérias sobre a “nova homossexualidade” (ou será “pan-sexualidade”?) que agita o século XXI.
Para minha surpresa, vejo várias lésbicas namorando homens “descolados” e muitos gays namorando mulheres “descoladas”; “tipo assim”, que não se importam que seus pares sejam homossexuais.
Tenho 44 anos e sou da época em que “sapatão” era como chamavam todas as “mulheres que amavam outras mulheres”. O termo era (e é) pra lá de pejorativo e preconceituoso, mas naquela época mantínhamos a certeza de que sabíamos perfeitamente quem era quem, ou melhor, quem gostava de quem. Na época, era fundamental que nos apegássemos a isso, era o nosso auto-reconhecimento.
Agora, com as relações tão fluidas e superficiais, o “sapatão” ou a “bicha” (outro termo pra lá de preconceituoso) corre o risco de virar peça no museu de cera de Madame Tussot, na Inglaterra.
“Eu gosto da pessoa, da personalidade”
Então tá, ficamos todos combinados assim: dependendo da lua, da trajetória de Saturno, da cotação do dólar ou da variação da bolsa de valores, direcionamos nosso desejo sexual naquele dia. Tem dia sim, que eu quero ser lésbica e aí procuro uma garota bacana pra passar à noite. Tem dia não, que estou na TPM, e prefiro afogar minhas mágoas com um garoto legal que pintar no pedaço.
É claro que banalizei a situação, mas me parece que as relações estão banalizadas. O que importa são as sensações e não os sentimentos.
Para o movimento homossexual, creio que isso seja uma ducha de água geladíssima. Afinal, anos de luta para afirmar o respeito às diferenças, para tudo acabar num “canibalismo erótico”, sem maiores conseqüências. Parece que não há sexualidades e sim seres-objetos de consumo – o consumo do que está na moda. Então, é “fashion” ser assim.
É a solidão que faz isso? É esse apetite sexual gerado pela mídia de que todos têm que ir pra cama com 10 por dia? O que é isso, afinal? Será que se gosta de fato “da pessoa, da personalidade” ou se gosta simplesmente das sensações geradas – superficiais? -, sem nenhum envolvimento afetivo?
Repetem-se as mesmas cantilenas machistas e preconceituosas. Quem nunca ouviu lésbicas jovens criticarem “os sapatões”? Ou gays jovens dizerem que não gostam de “bichas”? Fico pra lá de incomodada (como minha avó!) com essas posturas supostamente “mudernas”, mas que encerram questões tão velhas quanto o mundo, como o preconceito e a discriminação.
Quem sou eu?
É difícil ser lésbica e ser gay nesta sociedade. Ainda é, apesar de tantas vitórias. Então, para driblar o preconceito e a discriminação, escorregamos para situações (ou relações) mais ou menos toleradas socialmente. Isso eu diria num primeiro momento.
Sinceramente, afetiva e emocionalmente, o que mais incomodaria você: ser trocada por outra ou por outro? (a mesma pergunta vale para os rapazes). Seria a traição ou a negação do seu desejo? Você se sentiria diminuída por ser mulher ou por ter sido abandonada?
Não se trata de ter pênis (para as mulheres) ou ter vagina (para os homens). Isso não fará que uma mulher torne-se lésbica ou um homem gay. Trata-se de uma relação afetiva e não uma sensação momentânea. Trata-se de viver, conviver e lidar com a pessoa, com o sentimento. É isso que está em jogo. Contudo, numa sociedade hedonista como a nossa, esse novo conceito de “homossexualidade” (e porque não dizer, de heterossexualidade também) cai como uma luva. Não há diferenças. É o corpo que impera. E se somos apenas corpo – esse objeto inanimado, sem alma, sem sentimentos, não há necessidade de identidade ou de personalidade. Somos descartáveis.
Então, vamos reclamar dos “sapatões” sempre tão masculinizados e das “bichas”, sempre tão feminilizadas. Esses corpos não servem para serem expostos nessa vitrine.
Eu estava sendo preconceituosa ao acreditar que lésbicas só podem e devem transar com outras lésbicas (o mesmo valendo para os rapazes). Esta é a outra face daquela discriminação em que jovens lésbicas e gays dizem não gostar de “sapatões” e “bichas”. Caí num rótulo, quando o principal é o que estão fazendo do meu sentimento, do meu corpo. Eles não são objetos. E aí sim, “bandido é bandido. Polícia é polícia”.
Graça Portela
Assinar:
Comentários (Atom)